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Já haviam se passado 10 anos, exatos dez anos. Uma década. E como um ritual, peguei a minha velha bolsa de crochê (que eu só usava nessa data), e fui. Havia chovido a manhã inteira e minhas botas faziam barulho enquanto eu andava o que por algum motivo, me trouxe paz. Era outono e eu já podia vê-lo tão presente quanto o vento gélido que bagunçava meu cabelo naquele momento. A rua estava exatamente à mesma. As mesmas árvores, mesmo chão gasto, os mesmos arbustos... A única diferença eram as folhas que estavam por todo lugar deixando tudo completamente laranja, só se via o laranja, e o azul pálido do céu.  Até a velha casa de madeira abandonada era a mesma; exceto pelo capim que um ano atrás batia no meu joelho, agora estava um pouco acima da minha cintura, o resto, estava exatamente igual da última vez. Eu estava sentindo uma mistura de felicidade, ansiedade e medo, como se alguma coisa boa ou ruim fosse me acontecer. Sentei nos degraus da velha casa, coloquei o pequeno rádiozinho no meu colo, apertei o play, fechei meus olhos, e na voz rouca do meu amor, tudo voltara. O ano, o lugar, o clima, o cheiro... tudo voltara. Eu me lembrava de cada detalhe, até das roupas que usávamos; eu com um vestido bege de renda curto, ele com um jeans gastado e camisa branca, que continuava a cheirar a cigarro, não importava quantas vezes ele a lavasse. Era como se um pequeno filme passasse na minha cabeça, eu já o sabia de cor, mas não me cansava de assisti-lo. Não tem como descrever o que eu estava sentindo, quando ouvia meu bem cantarolar para mim, e então tudo voltava, o sentimento mais puro que se podia sentir, e que eu sentia todos os dias sem exceção, voltava mais forte do que nunca. E tudo se tornava tão real, que eu até podia ouvir, podia sentir, estava tudo ali, bem ali na minha frente, eu quase podia tocar... A canção acabara e só alguns segundos depois, voltei a abrir os olhos.  E em resposta a todas as vezes que me perguntavam se eu havia seguido em frente, fica mais fácil de entender pensando da seguinte forma: é como o vento, o calor, o frio, você não vê, mas você sente. Ele não está mais aqui, mas eu posso senti-lo toda vez em que fecho os olhos. Terminado o ritual, passei pelo capim e comecei meu caminho de volta pra casa. Era apenas uma questão de tempo para estar com meu bem de novo. 

Um comentário:

  1. Muito lindo Jac, você escreve muito bem. Fiquei curiosa sobre o texto haha

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