Incerteza

Envolvi-me de certo modo como para me proteger de algo que nem eu sabia como descrever, como uma lagarta se envolve em seu casulo antes de se tornar borboleta. Fato é que me envolvi e não sei ao certo como sair de meu casulo, ou se já saí e não percebi, também não sei. Mas confesso que tenho medo de em meio essa transação eu sair incompleta, pois a lagarta quando se torna borboleta se completa. As vezes penso que conforme a minha vida toma um rumo, eu deveria me ajustar e estar caminho junto a ele, e então chego a conclusão que na maioria das vezes, estou adiantada; ou atrasada. Não sei ao certo. E é essa incerteza que me deixa frustrada por não ter o poder da palavra certa. Afinal o que é certo? Sei apenas o que é errado, pois errando é como aprendo a viver.

Ela

Ela não sentia, ela não brigava, ela não opinava, ela não discutia.
Ela estava sempre impecável, intocada, perfeita.
Ela era tudo, e ao mesmo tempo era nada.
Ela não fazia esforços, ela esperava que acontecesse por acaso.
Ela era um dilema, uma dádiva, uma relíquia.
Ela nunca estava triste, sempre sorria, mesmo quando não queria.
Ela não sabia quão frágil era, ela parecia porcelana.
Ela podia ter a todos, mas não tinha ninguém.
Então ela se escondia, por que; ela não existia.

Voando cada vez mais alto

Nasci dia quatro de fevereiro de mil novecentos e noventa e cinco. Não sei a hora nem o nome do hospital, mas sei que a primeira palavra que falei foi 'atata' que eu relaciono a minha comida preferida; batata. Lembro pouco da minha infância; lembro que gostava de piscina, roubar flores, fazer as pessoas beijarem minha mão, irritar cachorros, brincar com meus primos (os mais velhos, nunca gostei de brincar com os mais novos ou com idade aproximada a minha), e dormir no colo de meu pai. Eu nunca fui uma criança solitária, pois não conseguia pegar meus brinquedos e ficar ali, brincando sozinha, mas em compensação eu poderia ficar horas fingindo estar me apresentando para quinhentas mil pessoas, ou encenando um capítulo de novela, ou até fugindo de um monstro em um filme de terror. Eu sempre amei a pequena sereia por ela ser, bem, uma sereia, embora sempre quisesse ser a cinderela, porque ela era loira. Eu também sempre amei a Barbie, tive a casa inteira e o até meus oito/nove anos. Me arrependo por não ter guardado tudo. Parei de brincar com esse tipo de coisa muito cedo eu diria. Pudera, sempre fui precoce. Tenho uma irmã quatro anos mais velha, e sempre queria estar á altura dela, não aceitava ela ter benefícios por ser mais velha. Talvez por andar com meus primos mais velhos que eu comecei a me interessar por inglês, aos sete anos eu já conseguia cantar músicas em inglês, hoje sou fluente sem curso algum. Devido a ser precoce sempre entendi as coisas 'difíceis' coisas de adulto com mais facilidade. Não era uma criança boba que descobria as coisas na idade certa. Também já fiz vários cursos; dança, costura, natação, guitarra... Não terminei nenhum deles. Sempre fui apaixonada por água, música, fotografia e escrever. Todas essas coisas me representam muito bem. Nunca fui uma das meninas, mais bonitas, ou com o padrão certo de beleza. Não era muito alta, não era loira, não tenho olhos claros nem cabelo liso, magra, bem magra, com olhos grandes, e com idéias e gostos bem diferentes as demais crianças. Então com o tempo, eu fui me aceitando mais, e percebi que beleza não é o que está por fora, beleza de verdade não se vê. Acho que conforme o tempo passa, e você olha para trás, você percebe que você não é nada mais do que você já foi quando pequeno. Ainda sou aquela garotinha de cabelos cacheados, correndo pela praia, chutando a água, aquela que salvou um dos filhotinhos de sua cachorra que os teve debaixo da sua casa, aquela que roubava flores e saía correndo, só parava quando tinha certeza que ninguém tinha visto, aquela que fez seu pai parar de fumar quando tinha seis anos, destruindo suas carteiras de cigarro, aquela que dormia com a mãe todos os dias e fazia seu pai a carregar até a sua cama tarde da noite; todos os dias. Aquela que sonhava em ser; cantora, atriz, modelo, fotógrafa, escritora, famosa, etc. A mesma que ainda sonha com tudo isso, sonha alto, mais alto do que se pode imaginar, sempre fui assim. Coisas pequenas nunca me interessaram, eu quero o mais alto que eu puder! Não quero restos, e nem beiradas, eu quero por inteiro. E daqui a cinquenta anos, ainda serei a mesma caçadora de sonhos.

Á flor da pele

As luzes da cidade iluminavam minha noite, em passos lentos eu seguia um caminho desconhecido, mas eu sabia como chegar, sabia onde queria chegar. De pés descalços sentia a areia gelada, entrando por entre meus dedos. Tudo que se ouvia eram as ondas e o barulho de alguns carros que insistiam em passar. Meus pensamentos iam longe, longe como as estrelas, que eu contemplava naquela noite, na minha noite. Fui deixando as coisas virem, sem impedir-las, pois já fazia um tempo que eu estava as segurando, não sabia quanto tempo mais eu conseguiria. Então aos poucos elas vieram, como uma chuva de granitos, me deixando incondicionalmente e completamente exposta. Todos meus ressentimentos, tristezas, mágoas, arrependimentos; estavam todos á flor da pele. Eu podia senti-los, eu quase podia pegá-los. Tudo de ruim que tinha em mim foi embora naquela noite, na minha noite. Elas foram junto ás ondas, e eu já não podia senti-las me machucando. A ferida estava curada; eu estava curada. Enquanto caminho na minha noite, respiro fundo, agora estou no alto. E no alto, nada pode me tocar.

Respostas

Entender é uma das palavras mais difíceis para mim. Não estou atrás de perguntas, mas sim de respostas. Então me pego pensando: você deve ter algo muito forte, tão forte, que não consigo encontrar nenhuma palavra que chegue perto do que eu quero dizer. Você me mantém por perto, quando quero estar longe, me faz ficar, quando o que eu mais quero é sair, me faz mudar de humor em questão de segundos, por quaisquer coisas que diga, porque você me afeta. Em todos os sentidos você me afeta. Não me pergunte o porquê, pois nem eu sei; não entendo. Continuo pensando... quão forte eu tenho que ser para poder agüentar tudo isso? Outra pergunta sem resposta. Fato é, que eu agüentei até agora, agüentei chegar em casa e vestir a minha camisa favorita, e perceber que ela tem mais o seu cheiro do que o meu, e então lembrar que ela fica melhor em você, do que em mim. Você me afetou novamente. Pensando eu me dei conta de que, não basta entender, mesmo que eu queira respostas para todas as minhas perguntas, não basta entender. Tudo que aprendi até agora foi vivendo; vivendo encontrei respostas.
Você é um enigma. E eu estou perto de te descobrir. Mas eu não sei até quando eu agüentarei; sentir teu cheiro, e não ter você aqui, vestindo minha camisa favorita...